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MANIFESTO PELA MÚSICA
AUTORAL
Extraído do site Overmundo, em 8 de junho
de 2009.
Há
um fenômeno na música produzida em Minas
atualmente. O que chama a atenção em primeiro
lugar é algo aparentemente óbvio na caracterização
de qualquer cena: é predominantemente autoral.
Segundo, e não menos impressionante é
a quantidade. Não há registro na história
recente de outra época em que se tenha produzido
tanta música como agora. Nem durante o período
áureo do Clube da Esquina nos anos 70 nem durante
a fase heróica do rock mineiro nos anos 80.
Além disso, há uma peculiaridade que
dá liga e amálgama para toda essa produção,
algo ainda intangível, dissimulado quase, subreptício,
mas identificável na maior parte dessa produção,
independente de gênero ou estilo. Esse elemento
muitas vezes é identificado como um germe da
escola harmônica mineira, ainda que seja a negação
dela.
Outra característica dessa cena é o fato
de que não há unidade estética,
a produção vai da música instrumental
ao rock, do regional ao samba, há uma diversidade
e uma afinidade ideológica.
Alguns fatores contribuíram e ajudam a entender
o fenômeno. Houve nos últimos anos uma
significativa profissionalização dos músicos
e produtores atuantes na cena. Parte dela é graças
ao aporte financeiro injetado no mercado local pelas
leis de incentivo, com destaque para a estadual, com
dedução do ICMS. Graças às
leis a maior parte desses artistas conseguiu gravar
seus discos em condições adequadas, montar
seus shows com qualidade técnica compatível
com os padrões de mercado, adquirir equipamentos
e instrumentos de qualidade, além dos produtores
terem se capacitado, formalizado suas empresas, etc.
Outro fator importante é o advento da organização
inédita dos músicos. Nos últimos
anos surgiram algumas entidades e um fórum que
ganhou reconhecimento da sociedade e abriu um canal
de interlocução com o poder público.
A partir dessa articulação foi lançado
um programa inédito no país que engloba
um edital de passagens, um edital de circulação
nacional e um programa de exportação.
Iniciativas como o Reciclo Geral, realizado em 2002,
organizado pelos próprios músicos e considerado
um marco dessa nova geração, serviram
como modelo e incentivo para outras ações.
Serviram também para provar a existência
de um público ávido por novidade, que
naquela ocasião lotou o Reciclo Asmare Cultural
durante três meses para ouvir exclusivamente composições
inéditas.
Essa música começa a ser reconhecida
no Brasil e no mundo. Prova disso são os convites
de festivais e casas de espetáculo que começam
a surgir. O público local já percebeu
esse fenômeno e acompanha a cena com avidez. Tudo
indica que somente os elos da cadeia responsáveis
pela veiculação e consumo local são
os únicos ainda insensíveis ao fenômeno.
Só isso explica o fato dessa música não
tocar nas rádios locais (com exceção
de programas específicos da Rádio Inconfidência,
da UFMG Educativa e da Rádio Guarani) e não
haver sequer uma casa de shows onde essa produção
seja acolhida com um mínimo de dignidade.
Entenda-se por acolhimento digno o cumprimento mínimo
de exigências universais para que a música
autoral seja apresentada, a saber: som e luz compatível
com a formação e tratamento acústico
de acordo com o espaço; palco com dimensões
adequadas à formação; cachê
ou porcentagem mínima da bilheteria; apagamento
da luz da platéia e interrupção
do serviço dos garçons durante a apresentação;
tempo máximo de 2h incluindo possíveis
intervalos; alimentação dos músicos;
pagamento dos direitos autorais; contrato assinado.
Essas condições, que podem parecer exageradas
se considerada nossa situação atual, são
comuns em todas as casas de espetáculo que investem
no perfil de música autoral em qualquer parte
do mundo. Palco, luz, tratamento acústico e atenção
do público, redução da luz e interrupção
do serviço de atendimento das mesas (em algumas
casas os garçons atendem com lanterninhas) são
detalhes fundamentais para se conseguir uma ambientação
adequada.
Mas sabemos que não se modifica esse atual contexto
da noite para o dia. É gradual a profissionalização
dos espaços e a resposta do público ao
investimento é inevitável. Esse é
o primeiro passo, estamos aqui propondo um diálogo
aberto com os programadores e diretores de rádios
e os donos das casas de shows em Belo Horizonte.
COMUM Cooperativa da Música de Minas
www.bhmusic.com.br/comum
Link original: Overmundo
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